sábado, 31 de março de 2018

Expectativas, decepções e aceitação


Caderno de trabalho sufi


Por Mestre Mohammad Abdullah Ansari

Tudo o que vemos, isto é, este mundo material e as coisas que lhe são próprias, é distorcido pelo que temos na cabeça, ou seja, nossas experiências, tendências, crenças, emoções, opiniões, etc. Não vamos ver a realidade deste mundo e entender nossas vidas até adquirirmos o conhecimento de nós mesmos. Podemos, entretanto, ter emoções, crenças e opiniões, mas temos que chegar ao ponto em que podemos ver isso como objetos separados de quem nós somos; são parte do veículo (o corpo) em que habitamos temporalmente durante a viagem pela Terra, por esta vida material. Quando você está numa situação da vida cotidiana, o cérebro está processando em todo momento, comparando e avaliando tudo baseado em experiências passadas, e as emoções estão reagindo e influenciando o cérebro e o corpo. Estar consciente de tudo isso e ao mesmo tempo ver a situação com os olhos do ser real, sua mente (a consciência do coração) é a única maneira de entender a realidade deste mundo.

Em todas as tradições espirituais é dito que o mundo é uma ilusão, não é real. Parte da ilusão a que se referem é o que foi mencionado acima, outra parte é que este mundo é uma criação de Deus feita especialmente como parte de nosso desenvolvimento espiritual – a alma chega aqui incompleta e aqui na Terra e universo material, há tudo o que é necessário para chegar a ver a Deus e entendê-lo em um grau suficiente para continuar nossa viagem espiritual em outra etapa de nossa vida eterna. Segundo alguns caminhos espirituais esta etapa pode incluir muitas vidas, isto é, pode ser que nasçamos várias ou muitas vezes até nos desenvolvermos suficientemente para “escaparmos do ciclo de nascer e morrer”. Ou pode ser que existam outras dimensões ou estados aonde iremos depois da morte do corpo. Em todos os casos, o corpo vai morrer e nós vamos continuar de uma forma ou de outra, e como isso vai ser depende das decisões que tomarmos e o que fizermos durante este período relativamente curto.

Apesar de tudo o que acreditamos ou lemos sobre os fatos desta vida e o que vai acontecer, só existe uma realidade e não vamos entendê-la lendo ou ouvindo o que alguém diz a respeito; temos que experimentá-la por nós mesmos e esse conhecimento vai chegar com trabalho.

Nós queremos tudo do nosso jeito e ai começa a ilusão. Todo o dia temos ideias sobre o que queremos, desde as coisas pequenas como chegar ao trabalho sem problemas e, de repente, você encontra um congestionamento de tráfego terrível, você vai a um restaurante esperando comer tal coisa, o seu prato favorito, e não tem, você tem uma reunião importante e as pessoas chegam muito atrasadas – se você observar atentamente verá que nossas expectativas e desejos, assim como as decepções são muito mais frequentes do que estamos conscientes, de fato, são contínuas todo o dia. As ramificações são tremendas, nos afetam de muitas formas, mental, emocional e fisicamente, sem falar nos danos ao nosso desenvolvimento espiritual.

Trabalho

Nossas expectativas e nossas reações à incerteza da vida são como véus que cobrem a realidade deste mundo, obscurecem a divindade do mundo, confundem nossos sentidos exteriores ou impedem o desenvolvimento de sentidos interiores e a possibilidade de ver através da fachada ilusória da matéria deste mundo para enxergar sua realidade divina, ver a Deus.

A todo instante você espera algo, mas qualquer coisa pode acontecer; não temos que deixar de desejar, mas para abrir o canal do entendimento real e tirar as nuvens que escurecem a visão interna e criam uma ilusão, devemos estar conscientes do que está acontecendo dentro, no cérebro, as emoções, e no corpo, e separarmos deles assim como aceitar as alternativas ou [eventos] inesperados sem reações negativas. De fato, podemos desfrutar qualquer mudança mesmo se for contra nossos desejos ou se nos custar trabalho. Este controle de nós mesmos é essencial para progredir espiritualmente e cumprir com nossa missão na vida. É trabalho de cada momento.

Não me perturba


por Mohammad Abdullah Ansari

Podemos entender essa expressão de duas maneiras: [de forma imperativa], ​[alguém] está me perturbando, então, que deixe de fazê-lo, ou o que [alguém] está fazendo não me perturba.

Qual é a melhor? Qual você prefere?

Há muitos anos houve uma luta de boxe entre Muhammad Ali e George Forman. Forman era um boxeador corpulento e temido por sua força, que lutava como uma escavadeira; avançava e nunca retrocedia. Ali, sempre era o palhaço, relaxado, astuto, furtivo e sorrateiro. Ali se gabava de ter uma técnica especial para Forman e que ia acabar com ele.

Começou a luta. Forman atacou Muhammad Ali com todo o seu formidável poder. Ali se inclinava contra as cordas cobrindo-se com os braços, cotovelos e as luvas. Forman aproveitava a postura frágil de Ali, golpeando-o incessantemente, parado em frente de Ali para encurralá-lo. Todo mundo estava surpreso, parecia que finalmente o famoso linguarudo ia receber o que merecia. Passou todo o primeiro round assim. O segundo round começou. Ali foi até às cordas outra vez e Forman o seguiu, dando golpes sem piedade nem descanso. Mas, espere, Ali estava sorrindo, estava zombando de Forman, desafiando-o a bater mais forte. Forman o seguiu, golpeando e golpeando, mas seus golpes só encontraram braços, luvas e o estômago de pedra de Ali. Durante o descanso entre os rounds o treinador de Ali gritava com ele: “Que demônios você está fazendo? Ele vai te matar. Você está perdendo a luta”. Ali só sorria. O terceiro round foi igual aos dois primeiros. Ali nas cordas e Forman golpeando furiosamente. Mas logo os golpes começaram a ter menos força, foram menos temíveis. Forman estava cada vez mais cansado, estava perdendo sua força. Ali, contudo, estava sorrindo enquanto recebia tudo o que Forman tinha para dar. Depois de uns quatro rounds, Forman estava exausto, não era mais que uma sombra do boxeador que costumava ser, que fazia tremer seus oponentes. Agora Ali mudou sua atitude completamente, começou a dançar e a dar golpes, pum, pum, pum, um após o outro. Forman estava inutilizado, quase não podia levantar seus braços para se defender. Em poucos segundos Forman estava jogado no chão, nem tentou se levantar. A luta tinha terminado. Muhammad Ali ganhou com sua técnica que ele chamou de “rope-a-dope” (rope = corda ou amarrar, dope = tonto).

A vida é como um boxeador do estilo de George Forman. Como Forman nunca havia sido vencido até que encontraram uma técnica adequada, todos caem com os golpes da vida se não aprendem a ser flexíveis e fluidos. Meu mestre disse que para chegar à meta (Deus) devemos aguentar. Em todos os ensinamentos dos sábios desde sempre nos aconselharam aguentar pacificamente os golpes e humilhações que sofremos na vida. Mas para dar um passo mais adiante, é ainda melhor aprender a não nos perturbar. Queremos chegar ao estado em que nada nos perturba. Às vezes como teflon – tudo o que nos ataca salta, e, às vezes, como vapor em que os ataques passam através de nós sem nos causar dano.

Este estado não tocável é o estado de nosso ser real, quem realmente somos. Já está, já existe. Só somos feridos quando estamos vivendo na forma terrena, a personalidade criada pelo nafs, mais ou menos como o ego. Sem ego, somos como Muhammad Ali, absorvendo tudo o que a vida nos lança e rindo. Como na meditação de flutuar, que é uma prática para alcançar esse estado, podemos ser como corpos sem substância, imunes ao ataque.

Para nós nos tornarmos imunes, temos que deixar de existir. Isto é, temos que sair do caminho e permitir que Deus atue através de nós. Não somos Deus, mas podemos ser instrumentos Dele se aprendermos a nos submeter a Sua vontade. Nossa insistência para que as coisas sejam da nossa maneira é uma negação da Realidade de Deus. Este mundo de Deus é bonito. Por ser de Deus tudo tem seu motivo. Só os guerreiros (os que lutam na guerra santa – a guerra interna) sabem escolher. Temos o poder de não nos perturbarmos por nada. Até podemos desfrutar de tudo.

A Tariqa Ansari Qadiri-Rifai Internacional



Uma breve explicação sobre o processo de união com a tariqa e sobre seguir a senda sufi.

Tenho dito que o Sufismo é uma senda sem forma. A religião a qual me refiro como religião formal, tem uma forma rígida; com razão, a religião formal é direcionada para todo mundo, é uma sistematização dos ensinamentos de um profeta, um sistema para todos. A religião formal tem forma, é externa com regras e rituais, coisas para ver e tocar.

Mas, para pessoas que buscam uma relação pessoal e direta com Deus, com a Realidade, o caminho é mais pessoal, todos somos diferentes e existe uma senda distinta para cada um. Mesmo assim, o buscador da verdade precisa de ajuda para encontrar o caminho apropriado e há métodos e procedimentos necessários para todos – uma estrutura. Por isso sempre existiram grupos e mestres para guiar pessoas sérias. O Sufismo é um destes grupos ou escolas.

É muito difícil enveredar-se no caminho espiritual sozinho. Há um montão de obstáculos, desvios e enganos esperando o viajante espiritual. Um guia é imprescindível. Realizar uma conexão com o sheik sufi por meio de uma “iniciação” chamada bayat é a forma através da qual fazemos essa conexão no Sufismo. Externamente é uma cerimônia simples, uma formalidade, um acordo entre o sheik (mestre) e o murid (estudante). Internamente é um laço entre corações, uma conexão psíquica. É por meio dessa conexão que o mestre ensina o estudante (se chama rabita e você pode pedir mais informação sobre isso).

O sheik sufi foi escolhido e autorizado pelo seu mestre, assim como este foi pelo dele, e assim sucessivamente por uma linhagem longa de mestres até o Profeta do Islã. Ao fazer uma conexão com o sheik o estudante entra nesta linhagem e recebe sua ajuda.

Depois do bayat o sheik dá ao estudante uma designação de dhikr, uma forma de meditação, a repetição de nomes de Deus (Você pode pedir informação mais detalhada sobre o dhikr). Realizamos essa prática diariamente. É a base sobre a qual tudo mais se apoia.

Em cidades grandes nos EUA, na Europa, na África e no Oriente Médio geralmente há suficientes pessoas interessadas para formar grupos que se reúnem semanalmente para fazer dhikr juntos, além da designação pessoal. Na América Latina estamos todos separados por grandes distâncias. Então, realizamos nosso trabalho pela internet. Na verdade, a distância não existe; a conexão entre o mestre e o estudante não são afetadas pela distância. Além disso, nosso trabalho é em nós mesmos, é um trabalho interior. Atividades com grupos de pessoas com ideias e metas similares são agradáveis, mas não são necessárias para nossa meta principal: a de nos conectarmos e conhecer nossa verdadeira realidade, Deus interior.

No começo o estudante deve realizar sua designação de dhikr com diligência. Com o tempo começará a sentir e a ver mudanças. Em nossa tariqa cibernética usamos muito a internet. O estudante recebe escritos regularmente. Nesses escritos há informações referentes ao seu caminho e pode haver coisas para fazer. O estudante deve escrever por e-mail expondo suas dúvidas. Pode também falar com o sheik por Skype ou Messenger.

Antes de pedir o bayat (iniciação) você deve ler escritos mais detalhados sobre a senda espiritual e nossos pontos de vista. Escreva expondo suas dúvidas.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O Dajjal, o Anti-Cristo e o fim do mundo


Por Sheik Mohammad Abdullah Ansari

Todas as religiões contêm histórias/predições sobre a chegada do fim do mundo, um período longo de mal na Terra, seguido por uma guerra tremenda entre o bem, um salvador (Cristo ou Mahdi) e o mal, o Anticristo, o Dajjal (a versão islâmica do Anticristo) ou outro personagem dependendo da religião.

A história em todas as predições é muito similar com diferentes nomes e localizações. Hoje em dia as versões parecem histórias incríveis, impossíveis, mais que espantosas. Como é que todos esses/as profetas e sábios/as, pessoas em todas as partes do mundo viram, receberam revelações quase iguais, mas com imagens diferentes e como podemos conciliar nossa crença na sabedoria dessas pessoas com suas predições e imagens tão extraordinárias?

Voltaremos a este assunto, mas primeiro vamos falar sobre o fim do mundo. Todas essas revelações religiosas terminam com o fim do mundo. Temos a tendência de rejeitar essa ideia porque foi o lema dos gurus e grupos fanáticos: “Arrependam-se porque o fim se aproxima!”. Mas vamos olhar o assunto a partir de um ponto de vista lógico. O mundo, ou melhor, a vida na Terra começou com umas poucas pessoas, talvez duas. Com essa população pequena toda a natureza se manteve mais ou menos intacta. E com pouca gente não havia muitos conflitos – com exceção de Caim e Abel (o que pode ter sido um evento simbólico para nos ensinar a natureza do ser humano). Mas pouco a pouco o povo cresceu e começaram mais conflitos, por avareza (apego às coisas materiais), o ego, e diferenças de ideias. Em todas as partes do mundo uma energia profética entrou em certas pessoas sábias que ensinavam a forma de viver segundo as leis divinas (a ciência do universo). Eles ensinavam sistemas (religiões) tanto espirituais como sociais que uniram as pessoas e, por isso, existiram sociedades em paz por períodos de tempo. Mas ao profeta morrer, gradualmente, as pessoas retornavam para suas formas anteriores e vemos como a história do ser humano é uma história de guerras e conflitos salpicada com períodos curtos de calma.


Esse é o nosso mundo, mas agora a população cresceu, ao invés de alguns grupos de pessoas separadas por longas distâncias, agora existem milhares de pessoas enchendo o planeta e já não existe ideologias/religiões/filosofias unificadoras para acalmar as forças negativas e conflituosas das pessoas. Ao contrário, hoje em dia todo mundo tem ideias e metas diferentes e o materialismo substituiu ideias religiosas – inclusive a religião de hoje em dia é materialista.

O crescimento da população não vai parar. Cada coisa que fazemos afeta em certo grau ao planeta e natureza tem que fazer ajustes – vemos todo tipo de mudanças, climáticas e estruturais (terremotos, furacões, tsunamis, etc.). Com a tecnologia os conflitos entre países são cada vez mais destrutivos e envolvem cada vez mais pessoas. Sem religião real as sociedades estão caindo na desordem – o propósito principal da religião formal é manter a ordem na sociedade hoje em dia, inclusive as religiões estão desordenadas e cheias de conflitos entre si.

Então, você não precisa ter uma grande imaginação para predizer o que vai acontecer com o nosso mundo. As situações atuais vão continuar crescendo, não há jeito de deter essa tendência. O mundo vai chegar a um ponto crítico, um cenário como os livros sagrados e profetas pregaram, mas ao invés de cavalos e espadas, teremos aviões, mísseis, bombas nucleares e mais destruição. Entretanto, tudo vai acontecer gradualmente, mas provavelmente não durante nossa vida.

Tudo isso já aconteceu muitas vezes no passado. O Budismo diz que o universo se repete constantemente, um Big Bang após o outro. O Hinduísmo ensina que este mundo passa por ciclos, quatro ciclos, períodos de espiritualidade e tranquilidade seguidos por períodos cada vez mais agitados até o Kali Yuga, o ciclo final e o fim do mundo. Logo começa tudo de novo.

Tudo isso pode parecer uma forma negativa de pensar e muito pessimista, mas só se você não entende o propósito deste mundo, a Terra; se você pensa que este mundo e vida são a meta ao invés de uma estadia temporária, de passagem, uma escola para o desenvolvimento da alma. Para nós o caminho espiritual, trabalhar em nós mesmos, trabalhar para manter a conexão e uma relação com Deus e com o conhecimento de que viemos de outros lugares e vidas e vamos continuar a viagem depois da morte física; não devemos preocuparmos tanto das dificuldades atuais do mundo nem da destruição inevitável do mundo.

Agora, como é que pessoas tão próximas a Deus, sábios e profetas inigualáveis, tinham visões tão incríveis que para nós, pessoas modernas, parecem loucura?

Tem a ver com a maneira com que Deus, a Força Divina, nos comunica e a natureza do ser humano. Receber de Deus não é como escutar uma grande voz saindo de uma corneta gigantesca do céu. Com o trabalho em práticas espirituais o coração espiritual se limpa e um canal de guia se abre. Em uma pessoa que dominou seu ego a guia, o conhecimento, a sabedoria flui do coração ao cérebro. O cérebro, além de ser como um computador e arquivo de informação é também um tradutor de informação divina que provém do coração; bytes de energia. Sendo que o cérebro só sabe o que viu, ou seja, seu banco de imagens é limitado ao que viu no mundo material do seu tempo, a informação divina se revela em termos atuais. Por isso as imagens do livro do Apocalipse da Bíblia, as descrições do Profeta do Islã (a paz seja com ele) e de Hazrat Ali (as) do Dajjal e as batalhas contra ele, o Mahdi e Cristo, bem como também histórias similares dos Astecas, Maias e outros das Américas, são simbólicas de eventos que vão acontecer em um futuro não tão distante.

De qualquer maneira, todas essas histórias não afetam em nada o trabalho que temos que fazer. Algumas pessoas perdem muito tempo estudando e se preocupando com essas histórias que não nos incumbem. De que serve? Todo momento se preocupando com o que vai passar e com a forma que vai passar é tempo roubado do momento presente. Se trabalharmos para limpar nossos corações e lutarmos contra o ego, o canal de guia divina do coração se abrirá e o que necessitamos saber chegará.

O mundo vai terminar, mas nós não!

O Dar



Por Sheik Mohammad Abdullah Ansari

Abu Bakr Al-Siddiq foi um personagem importante no Islã. Foi um companheiro do Profeta e o primeiro dos 4 califas corretamente guiados depois da morte do Profeta. O Profeta ensinou os métodos do Sufismo a duas pessoas: Ali Bin Abi Talib e Abu Bakr. Enquanto a maioria das tariqas sufis se originam de Ali, a tariqa Naqshbandi tem Abu Bakr como o primeiro de sua linhagem. O que segue é um hadiz (tradição verídica) sobre Abu Bakr.

Uma vez o Profeta pediu que todos dessem o que pudessem para um projeto de caridade. Omar Bin Al-Khattab, outro dos quatro companheiros do Profeta mais importantes, tinha algo de dinheiro para oferecer e disse a si mesmo: “Chegou o momento em que poderei ganhar de Abu Bakr”. E trouxe a metade de todo o dinheiro que possuía. O Profeta lhe perguntou: “Quanto você guardou para sua família?”. Omar respondeu: “uma parte igual”. Mais tarde, no dia em que Abu Bakr chegou com tudo o que tinha e o Profeta lhe perguntou “quanto você guardou para a sua família?”, Abu Bakr respondeu: “deixo para Allah e Seu Mensageiro”. Diante disso, Omar comentou: “nunca mais vou tentar competir com Abu Bakr quando o assunto for caridade”.

Não sugiro que você imite o Abu Bakr, muito embora ao dar todo o seu dinheiro, Abu Bakr sempre terminou ganhando mais. O que acontecia? É ciência!

O corpo humano, como expliquei em outros contextos, é um condutor de energia. Temos o exemplo da bomba de uma casa que faz subir a água para a caixa d’água no telhado. Mas, o que acontece quando a água não sobe? Por que não sobe? É porque tem ar no cano e por isso não há fluxo. Se você colocar água no cano ou tirar de outra forma o ar, a água enche o cano e tudo começa a fluir. De fato você nem precisa da bomba. Uma vez que [a água] está fluindo se cria uma sucção natural como podemos fazer ao chupar uma mangueira.

O corpo humano é similar. O corpo contém redes de energia. Quando essa energia não flui bem, aparecem as doenças. Toda doença é o resultado de bloqueios de energia e/ou desequilíbrios de energia no corpo. A dor corporal resulta de uma concentração excessiva de energia em uma área do corpo. Para eliminar a dor é necessário fazer com que a energia se mova de novo reduzindo-a até seu nível adequado na área afetada, bem como restabelecendo o equilíbrio energético no corpo inteiro.

Dar é similar. Quando você da, quer seja de forma material ou emocional, até um sorriso, é como tirar obstáculos (o ar do cano) e você cria uma sucção e fluxo natural. Quanto mais você da, mais você recebe. No Islã a acumulação de riqueza excessiva é proibida. É como comer em excesso, o corpo não pode digerir tudo o que comeu no tempo apropriado e o excesso apodrece no estômago e nos intestinos e produz toxinas e doenças. Se você tem desejos materiais em excesso e acumula demais sem compartilhar, são criados bloqueios de energia positiva tanto no corpo físico quanto no corpo energético (o ser real) e a energia se torna negativa causando danos importantes tanto para a vida terrena quanto para a vida futura.

Tudo o que é material é uma manifestação de realidades espirituais. A acumulação de bens materiais e de dinheiro são manifestações de estancamentos de energia divina e bloqueios contra a entrada da guia divina. A guia divina chega em uma forma não tão diferente que os cabos e/ou ondas que trazem informação ao seu rádio ou televisão – energia. Se há um curto circuito nas redes elétricas da sua casa, a energia da companhia de luz não chega. Você fica na escuridão. É igual com o seu corpo físico e sutil.

O não dar e a acumulação de riqueza também são um ato de medo, a fonte de todas as emoções e estados negativos na vida. Mesmo que você precise ser prudente e prático, precise proteger a sua família e se preparar para o inesperado, o excesso leva você espiritualmente à ruína, bem como a muitos problemas na vida presente, inclusive enfermidades físicas e emocionais.

“Dai, e ser-vos-á dado; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando, vos deitarão no vosso regaço; porque com a mesma medida com que medirdes também vos medirão de novo.” (Evangelho de Lucas 6:38)

Realidades básicas da existência - Parte 1



Por Mestre Mohammad Abdullah Ansari

Antes de tudo, para entender e agir bem, bem como desfrutar e ter sucesso na vida, temos que crer e entender que existe uma força ou energia sobre a qual tudo o demais descansa, o primeiro componente de tudo o que existe e de que tudo o demais depende, deve sua existência. Esse elemento básico e primordial se chama Deus em português, é a energia consciente do universo.

Por que devo acreditar em Deus para funcionar e desfrutar da vida? Nossas vidas e o mundo inteiro são regidos por leis ou sistemas exatamente como na ciência – de fato, tudo é ciência. As coisas mais simples que fazemos na vida só dão certo se conhecemos os procedimentos ou o processo correto para fazê-las. Na tecnologia, os avanços que tornaram nossas vidas mais cômodas e agradáveis devem seus descobrimentos ao conhecimento da ciência básica que começa com o conhecimento do átomo, o elemento básico do material, e sua estrutura, os menores elementos que o compõem. Avanços e êxitos em nossas vidas também dependem do conhecimento de nossa origem, nosso propósito e nosso destino. Nós nos originamos da essência de Deus; Ele nos enviou à vida neste mundo temporário em um corpo temporário para aprendermos mais Dele e as realidades da existência, depois vamos morrer e continuar uma forma de vida em outro lugar. Se você não reconhece esses fatos e não procura o conhecimento necessário para encaixar dentro das realidades, leis e sistemas do universo, você se chocará de novo e de novo com a estrutura dele. O universo é como uma estrutura fixa com todas as suas partes conectadas e sincronizadas – para funcionar bem dentro dessa realidade o ser humano tem que seguir as regras, seguir o mapa, por assim dizer.

A verdadeira realidade de Deus está além do alcance do cérebro humano, todavia, é possível entendê-la até um ponto em que uma conexão se cria e Deus lhe guia e abre [os seus] olhos interiores, e o que você não vê agora se tornará visível. Mas isso não acontecerá se o seu conceito de Energia Básica, isto é, Deus, é restrito por pensar em termos materiais. Por fazer isso, pensar pequeno, seu mundo e entendimento do universo não chegará mais longe da mesma materialidade, um mundo e conceito pequeno e limitado.   Uma forma de pensar materialmente e fechar a visão às grandes realidades além deste mundo visível e acarretar efeitos daninhos à saúde física e emocional é a crença comum de que Deus lhe recompensa e castiga por suas ações como se Ele fosse um ser como eu e você. As recompensas e castigos que experimentamos são resultados de nossas ações que não encaixam com as leis universais. Deus pôs o sistema em andamento, mas nós nos castigamos e recompensamos a nós mesmos. Conceber a Deus de forma pequena como humano, com sentimentos e ações humanos, encolhe o cérebro e os sentidos, de forma que o indivíduo não terá a capacidade de ver e entender a não ser superficialmente. Além disso, este foco material nos faz cair na mesma materialidade e numa vida de altos e baixos e emoções extremas, uma vida telenovelesca.

Tudo está conectado: a mente, o seu vizinho, o seu amigo e o seu inimigo, o mundo e Deus. Somos todos parte de um todo. Cada ação e pensamento tem um efeito em alguém mais, no mundo e em nós mesmos. Desta forma fazemos nossos próprios destinos. De forma parecida, por conhecer como as coisas funcionam, como Deus funciona e como você pode se relacionar com Ele, você pode sincronizar sua vida com a energia Dele para se mover através da vida como se você estivesse boiando em um rio levado pela corrente enquanto todos os demais estão nadando contra a corrente, perdendo energia vital com cada movimento.

Continuamos em breve, inshallah.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Entender a realidade quântica nos liberta


Por Sheik Mohammad Abdullah Ansari

Em muitos escritos falei de um princípio importante para alcançar o conhecimento verdadeiro de quem somos e para reconhecer e conhecer as partes de nós que não somos nós. Para ficar mais fácil, não somos o corpo, o cérebro, assim como não somos o ego, a personalidade falsa criada pelo nafs que nos engana e nos deixa na ignorância. Sendo que já escrevi isso muitas vezes, não vou falar mais sobre isso diretamente, mas há outros aspectos importantes desse tema.

Se não somos o corpo, tampouco somos as demais [partes]. As ramificações disto são enormes. Olhe para as pessoas, um infinito de formas e cores com um infinito de personalidades e maneiras de ser. Uma estudante me perguntou uma vez por que Deus, se Ele é perfeito, não criou nossos corpos perfeitos. Parece que o corpo humano está, na maioria de nós, deforme, ninguém parece perfeito, muito menos. Outra vez vemos o mau conceito da realidade deste lugar, nossa situação, a vida terrena. Como tenho dito uma e outra vez, este mundo não é a meta e como disse o Profeta (a paz esteja com ele) “Estamos aqui como passageiros, só de passagem”. A condição e a forma dos corpos são o resultado de muitas coisas. Uma é a história do próprio corpo, isto é, o que herdamos dos ancestrais do corpo que habitamos atualmente, todo o bom e/ou mau deles deixou impressões no DNA que afetam tanto a forma do corpo e características mentais e emocionais.  Também o corpo, bem como a situação geral em que nascemos e vivemos são projetados como parte de nosso desenvolvimento, cada um segundo a necessidade própria de sua alma. Dessa forma podemos dizer que todos temos corpos perfeitos, perfeitos para nós nessa etapa de nosso desenvolvimento espiritual. Nosso trabalho é lutar contra o mau, as inclinações negativas que herdamos e os obstáculos ambientais, as influências negativas alheias, tirando todo o “não Deus” que bloqueia a conexão divina enterrada profundamente em todos nós.

Desta forma, quando vemos uma pessoa, quer seja boa, má, ou uma mistura dos dois com uma grande variedade de características que nos agradam e não nos agradam, devemos recordar que isso não é a pessoa, que dentro dessa pessoa há uma alma lutando contra os mesmos obstáculos que nós.

Esse corpo tampouco é o que parece. Estamos presos em um marco ou referência de tempo que nos faz ver tudo sólido e separado. A realidade é outra. A solidez e a separação de tudo é uma ilusão, e isso é especialmente importante quando se trata de nossas relações e pensamentos de outras pessoas, o próximo. Todos estamos conectados e relacionados. Todos estamos no mesmo lugar, no mesmo caminho a Deus, se bem que em diferentes etapas da viagem. Com o trabalho espiritual chegará um momento em que os sentidos internos se abrirão e ao invés de ver toda essa solidez e separação, se verá tudo como energia, bytes de energia/informação movendo-se e encolhendo-se, e dentro de tudo estão/são as almas confundidas para encontrar seu lugar.

Todos temos guia divina, mas com diferentes graus de conexão. O cérebro é o tradutor da guia que chega do coração, mas a informação corre através de um canal que está entupido com lixo que se origina do nafs, o ego, desejos, medos e fantasias.

Um dos obstáculos de ver a realidade de nossa situação, a natureza real e amorfa da vida terrena, é atuar contra dessa mesma realidade. Conhecer internamente, ou seja, experimentar de acordo com a Verdade, inclusive antes de senti-la internamente.

Nunca devemos pensar que somos melhores do que qualquer outra pessoa. Devemos tentar ver a todos como almas flutuando dentro de um corpo alheio, uma situação temporal como a nossa. De fato, a alma dela é parte de uma alma universal assim como a nossa.

Expectativas, decepções e aceitação

Caderno de trabalho sufi Por Mestre Mohammad Abdullah Ansari Tudo o que vemos, isto é, este mundo material e as coisas que lhe s...