quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O emocionalismo


 Por Sheik Mohammad Abdullah Ansari

O emocionalismo é a antítese do espiritualismo. A imagem popular do santo estoico que não se perturba com nada, que parece sem emoções, não está muito longe do alvo. Lembre-se que não devemos confundir o amor real e suas ramificações (compaixão, tristeza com a condição dos outros, e etc.) com as emoções; o amor não é uma emoção – o amor falso sim o é – o amor mais comum está baseado em interesse pessoal, sexo, medo ou conveniência. Para aqueles que alcançaram um grau de paz emocional, resta a pergunta: “estou mal, é bom não ter muita emoção ou é apatia?”.

Para respondermos a pergunta só temos que abrir os olhos e observar as vidas das pessoas emotivas, que são levadas pelas circunstâncias de cima para baixo como uma montanha russa emocional. Queremos uma vida telenovelesca? Acho que não! Uma pessoa emotiva não consegue pensar. O que é melhor, pensar ou não pensar? Todavia, lutamos com a pergunta: eu sou o louco? Só com mais práticas espirituais chegaremos à resposta, inshallah (se Deus quiser) – um foco em Deus, meditação e um esforço constante para fazer o correto.

As emoções negativas, medo (sem perigo real), avareza, ódio, raiva, inveja, depressão, preocupação, têm reações físicas negativas até, com o tempo, provocam doenças. Estar consciente dessas reações é um passo importante no caminho espiritual, isto é, conhecer o que está bloqueando a visão de nossa realidade divina é uma parte primordial no trabalho de remover esses obstáculos que cobrem a conexão com nossa realidade, o corpo sutil, o coração, a alma.

Como a raiva, o ódio, a avareza e todas as outras emoções negativas são sentidas? São prazerosas? Na realidade elas têm duas caras: são como drogas, nos levam a outro estado de consciência, nos desconectam do cérebro e do raciocínio, e pior, podem nos fazer cometer atos contraproducentes e/ou atos destrutivos, estados em que cremos que estamos corretos, isto é, até desfrutamos causar dano a nós e a outros – um estado de cegueira. As emoções negativas reforçam o estado físico, reforçam o engano da materialidade e a solidez do corpo, assim como a ideia de que somos o corpo.

Observar esse processo, a realidade do que está acontecendo, conduz à sabedoria, o conhecimento das realidades desta vida.

Observar e sentir conscientemente as reações físicas do corpo nos momentos em que surgem emoções negativas, automaticamente nos separa delas a um grau e esse grau aumenta pouco a pouco com a prática até que conseguimos o controle e as eliminamos por completo. Além do controle das emoções, esta prática conduz à consciência mais forte do ser real, a alma, a consciência de uma realidade, nossa realidade, um ser eterno habitando temporalmente um corpo, um veículo, uma ferramenta e com isso a habilidade de usar essa ferramenta para cumprir nossa missão na Terra – a de conhecer e experimentar a Deus.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Posse e propriedade


Por Sheik Mohammad Abdullah Ansari
                                                         
Durante algum período da minha vida trabalhei vendendo carros. O dono da companhia reciclava fuscas, carros da Volkswagen usados feitos novos, era uma pessoa estranha, imprevisível, até mesmo errática. Um dia dois empregados estavam discutindo sobre quem era o dono de algo, não me lembro exatamente de que coisa, uma ferramenta ou carro, e o chefe me disse: “Não sabem que a propriedade é uma ilusão”. Fiquei surpreso porque esse homem não era nada espiritual, mas o que ele disse foi muito profundo e não foi a primeira ou a última coisa dessa índole que havia falado. Como disse, podemos aprender de qualquer pessoa, a verdade é a verdade não importa de que boca saia – na verdade, quem está falando? Deus sempre está falando conosco e escolhe uma série de formas para fazê-lo.

Há muitos ângulos de entendimento sobre posse e propriedade. Muitas vezes nossas posses nos possuem ao invés de as possuirmos – isso é apego, um obstáculo importante no caminho espiritual reconhecido assim por todas as sendas esotéricas. O desejo, que o Budismo considera a principal causa do sofrimento do ser humano, é uma forma de posse, o desejo como uma extensão da coisa desejada provoca emoções que desencadeiam reações físicas – se você vê algo que deseja (ou qualquer outra emoção – desgosto ou preconceito assim como toda gama de emoções e pensamentos tanto positivos como negativos) essas emoções fazem com que o cérebro envie químicos pelo corpo com efeitos bons ou maus.

Mesmo se por um trabalho em si mesmo, meditação, autovigilância e autocorreção, você se libertar do apego a coisas materiais, isto é, se você já não for “possuído” por suas possessões, você acredita que é o dono das coisas? Quando uma pessoa compra uma casa por meio de uma hipoteca se sente como dona da casa, enquanto, na verdade, o banco que é o dono.  Como também muitas coisas acontecem na vida e tudo muda em um dois por três.  Quem realmente é o dono da casa? Quem é o dono de tudo o que você acredita que é seu?

Devemos entender que nada nem ninguém nos pertence. Temos tudo emprestado de Deus. Quanto mais entendermos isso e torná-lo real em nossas vidas mais livres ficaremos para receber. Receber? Nós fomos feitos para receber e Deus está dando. Não recebemos o que Deus está dando porque estamos cheios, cheios de “posses”, apegos às coisas, desejos de possuir mais coisas e mal-entendidos como a ideia de que possuímos coisas. Quanto mais temos, mais pesados e cheios estamos. Você deve chegar a ver e sentir esse fato, essa realidade “fisicamente”, isto é, que isso não é uma metáfora, são coisas que você pode ver e sentir se continuar trabalhando nas práticas como as formas de meditação e a autovigilância, corrigindo pensamentos errôneos e negativos, bem como evitando emoções negativas. Se não nos cremos nem nos sentimos donos de nada, uma cascata de bênçãos, presentes de Deus, cairá sobre nós. Deus, a Realidade Consciente da existência, está onipresente em todas as coisas, se não o vemos é porque colocamos uma barreira entre Ele e nós. Não devemos acumular, mas tirar, esvaziarmos.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Chega de rótulos


Por Mestre Mohammad Abdullah Ansari

Há algum tempo contei para uma estudante de yoga, uma doutora, que no Tibete às pessoas pagavam os médicos enquanto estivessem sãs e deixavam de pagá-los se ficassem doentes. Ela respondeu que isso não funcionaria aqui.

Isso me fez pensar. Hoje em dia seria impossível que uma comunidade entrasse de acordo para fazer algo assim como a comunidade tibetana do passado. Por quê? Naqueles dias todas as pessoas da sociedade compartilhavam ideias iguais, todos acreditavam nas mesmas coisas e eram unidos. Todos sabiam seu lugar na sociedade e ninguém se rebelava, todos faziam sua parte. Podemos ver o mesmo em tribos “primitivas” e também nos tempos em que um profeta viveu com seus seguidores. Tão logo o profeta morria pouco a pouco a religião que Deus lhe revelou começava a ser distorcida e as pessoas voltavam para seus antigos hábitos.

Hoje em dia vemos que em qualquer país existe uma grande dispersão de ideias e maneiras de viver; não há concordância geral e por isso existe muito conflito.

É comum que pessoas “religiosas” se identifiquem com outras pessoas da mesma religião. Acreditam que sua religião é a melhor e que outras pessoas de sua religião são melhores e rejeitam as pessoas de outras religiões. Contudo, você compartilha as mesmas ideias e interpreta a sua religião da mesma forma que as outras pessoas da sua religião? Nos EUA onde a maioria das pessoas é cristã protestante deve haver centenas de igrejas cristãs de diferentes seitas com ideias um tanto diferentes das outras igrejas cristãs protestantes. Na América Latina onde a maioria das pessoas é católica, cada pessoa tem sua própria forma de ser católica, segue algumas leis da Igreja e ignora outras. Não há consenso.

No mundo atual há grupos que se rotulam muçulmanos e que matam em nome de Deus e inventam pretextos “islâmicos” para cometer atrocidades contra todo mundo. Até há países que adotaram a lei islâmica (xaria), mas suas interpretações acabam sendo não-islâmicas e podemos dizer o mesmo sobre o hinduísmo.

A verdadeira realidade é que você pode ter mais em comum com uma pessoa de outra religião do que com alguém que professa a mesma fé que você. Cada vez que você rotula algo, esse algo se limita, é distorcido e o pior, a pessoa que rotula outra ou a religião dela limita o seu próprio entendimento e até encolhe seu cérebro.

Em nome da religião vimos atrocidades ao longo da história, a inquisição, a Segunda Guerra Mundial e extermínio de judeus; Israel contra palestinos, os talibãs no Afeganistão, os fanáticos “islâmicos” no Iraque e na Síria nos dias atuais, e muitíssimas outras mais desde o princípio dos tempos.

Deus revelou a ciência de como são as coisas e como podemos nos harmonizar com Ele, mas a fórmula Dele para fazer isso não se encontra na maneira em que as religiões de hoje em dia são entendidas e praticadas. Todas as religiões pregam o não julgar, é hora de colocar isso em prática, além de desfazermos de rótulos e preconceitos. É hora de usar o cérebro. Um muçulmano é alguém que se submete a Deus – não conheço ninguém que realmente esteja submetido a Deus, então não há muçulmanos de verdade. Existem católicos de verdade? Duvido! Tampouco existem judeus de verdade e nem budistas.

Todavia, há pessoas lutando para serem muçulmanos, cristãos, católicos, judeus, budistas e etc. Seguimos com eles sem importar os rótulos. Vamos buscar a conexão com o Todo-poderoso sem importar o nome que usamos por Ele ou por nós mesmos.

A forma de amar a Deus é através do amor por Sua criação – ama ao teu próximo.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Remova os limites


Por Sheik Mohammad Abdullah Ansari

Um sábio lama tibetano escreveu:

“Vocês se lembram da história de um Geshe Kadhampa [um lama da linhagem budista tibetana] que viu um homem circunvalando [um ritual religioso, dando volta, caminhando] uma Stupa [monumento ritual de peregrinação]? O Gueshe lhe perguntou: ‘o que você está fazendo?’. O homem respondeu ‘circunvalando’. O Geshe disse: ‘não seria melhor se você praticasse o Dharma [conduta reta, leis universais]?’. Depois viu que o homem estava fazendo prostrações e quando lhe perguntou o que fazia, o homem respondeu: ‘estou fazendo cem mil prostrações’. ‘Não seria melhor se você praticasse o Dharma?’ - perguntou o Gueshe.

E assim continua a história, mas aqui o ponto é que só fazer atos que parecem ser devotos como as circunvalações e as prostrações não é necessariamente praticar o Dharma [seguir o Sistema de Deus]. O que temos que fazer é transformar nosso apego a nós mesmos e a atitude de autossatisfação. E se não mudarmos nossa mente desta forma, nenhuma das outras práticas que fizermos servirão; fazê-las é só uma brincadeira.” (Lama Thubten Yeshe)

O lama explicou a importância de uma atitude amorosa amável, uma forma de ser que os budistas chamam bodichita, de querer o bem-estar de todo o mundo, a todos os seres sencientes, de desviar a atenção de si mesmo em direção a todos os demais, igual como os profetas Jesus e Muhammad (Maomé); amor – Jesus pregou a todos, até aos inimigos e a vida do Profeta Muhammad foi um exemplo de amor puro.

Há algum tempo escrevi o seguinte sobre o tema:

“Na verdade há tantos caminhos como há pessoas, todos nós somos diferentes e todos temos necessidades espirituais distintas. Um lema sufi diz: “O amor é o caminho mais rápido até Deus”. O amor, o método do amor para conhecer a Deus e conseguir a “iluminação” é composto por compaixão e compreensão, um desejo de que outras pessoas sejam felizes e exitosas e que consigam a proximidade com Deus. Uma oração do budismo tibetano é:

Que todos os seres sejam felizes,
Que todos os seres se libertem do sofrimento,
Que ninguém seja despojado de sua felicidade,
Que todos os seres consigam igualdade, livres de ódio e de apego.

Querer que todo mundo seja feliz e que haja paz no mundo inteiro é logicamente impossível, mas o desejo de que aconteça é uma forma poderosa de romper a ilusão egocêntrica de separação. Como diz o Alcorão, todos somos criados a partir de uma única alma, todos estamos conectados, querer o bem de outra pessoa é querer o bem de uma parte de nós mesmos, ajudar a uma pessoa é ajudar a nós mesmos, amar a alguém mais é amar a nós mesmos. Querer que todo mundo seja feliz e livre de sofrimentos é uma forma poderosa de combater o domínio do ego.”

No tempo dos profetas as pessoas entenderam o porquê dos ensinamentos, o poder energético dos mestres era tamanho que suas palavras tocavam ao coração e não era necessária mais explicação. Hoje em dia tudo é diferente.

Hoje queremos saber: por quê?

“Os servos do Compassivo (Deus, ar-Rahman) são aqueles que vão pela Terra humildemente e que, quando os ignorantes lhes dirigem a palavra, dizem: Paz!” (Sagrado Corão 25:63)

Nossa realidade, o ser divino, reside em nós mesmos, mas está enterrado embaixo de uma invenção criada por nosso apego ao mundo e uma grande avalanche de influências mundanas – o ego, o grande EU. Não há outra maneira de chegar a conhecer nosso verdadeiro ser, nossa realidade, nosso núcleo divino, sem dominar o ego.
  
Falar de ego e de sua eliminação assusta a pessoas normais, creem que o ego é quem são, que o ego é sua individualidade e sem ele se tornariam menos, quando na verdade é o contrário, o ego nos torna pequenos, nos encolhe; além do ego há um vasto universo – todo um universo está dentro [de nós]. O ego é uma personalidade falsa, uma criação do mundo material e suas influências – na realidade não existe, é um fantasma. O ego é uma crença, é criado de fantasias de quem somos e assim nos restringe entre essas fronteiras, os limites que nós mesmos nos colocamos. Se você pensa que é isso, você não é tudo o demais.

O verdadeiro ser não tem limites, é parte da Realidade Divina. “E Ele é quem vos criou de uma só Alma...” (Sagrado Corão 6:98). Estamos conectados a todas as outras almas, somos mais que um indivíduo, somos parte de tudo e assim muito maior do que já experimentamos.

Somos tontos limitando nosso crescimento e desenvolvimento espiritual ao nos apegarmos a essa fantasia prejudicial, o ego, nossa imagem de ser.

Nossa salvação é nosso próximo, nossa atitude para com os demais, nossos bons desejos para com todos, nossa ajuda até os limites de nossas habilidades. Tudo isso implica uma luta contra nós mesmos, ou melhor, contra nossos interesses, orgulho, soberba, raiva, preconceitos, preconcepções e todo o demais que constitui a irrealidade que criamos.

Toda a negatividade, pensamentos e emoções negativas nos levam a vidas de sofrimento e dor. Temos que manter em mente que cada coisa que fazemos por outras pessoas, cada bom pensamento e emoção, na realidade estamos fazendo por nós mesmos.

Lembre-se o que é o amor. O amor é a frequência energética através da qual a guia de Deus flui. Faça a conexão. Ame e conecte-se.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Bad Vibes (Más Vibrações)


Por Mestre Mohammad Abdullah Ansari

Todos experimentamos más sensações quando alguém de mal humor, com raiva ou deprimido entra no cômodo onde estamos. Estamos absorvendo suas más vibrações? Não há dúvidas que viver com pessoas deprimidas ou com constante raiva é desagradável, mas, realmente somos afetados pelas vibrações de outras pessoas?

Antes de continuar é importante destacar que sim, estamos rodeados de energia, por todo tipo de vibrações, e muitas têm efeitos tangíveis em nosso corpo. Nossa situação energética pode ser caracterizada brevemente pelo que segue:

Tudo é uma forma de energia e isso inclui a nós mesmos, o corpo e o cérebro com seus pensamentos e as emoções. A ideia de que o corpo é uma unidade sólida é uma ilusão. Somos feitos de átomos, partículas quase sem substância. A realidade de nosso corpo se estende para fora, longe de nossa habilidade de percepção, e inclusive os pensamentos e emoções formam uma área que irradia ao redor do corpo físico. Dentro de nós há um caos de energia, desequilíbrios causados por nossas atitudes, pensamentos e emoções negativas. O ambiente externo que nos rodeia também está igualmente em um estado de caos refletindo nosso estado e o de outras pessoas, assim como condições alheias, naturais ou não naturais.

Nossas emoções e pensamentos são ondas, frequências de energia que sintonizam com frequências alheias similares, atraindo ou afastando boas ou más vibrações (energias) que formam acontecimentos reais. É comum que quando uma coisa dá errado, outras situações parecidas se seguem – não é uma surpresa, a energia negativa sintoniza com outras energias iguais que se acumulam – a menos que um poder positivo rompa a cadeia.

Igualmente [acontece com] o corpo e a saúde. O corpo tem redes de energia (Chi ou Prana), energia vital. Se há bloqueios no fluido desta energia, problemas tanto físicos quanto emocionais se desenvolvem. É um círculo vicioso, os bloqueios são o resultado de atitudes, pensamentos e emoções negativas e os bloqueios da energia vital provocam mais sensações negativas. Por essa interconexão entre a mente e o corpo, são recomendadas certas formas de exercícios, aqueles de que tratam esta série de escritos.

O que Jesus disse? “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão acrescentadas (Mateus 6:33). Temos que primeiro por em ordem nossas casas (o corpo, a mente e as emoções), trabalhar em nossas atitudes, pensamentos e emoções tirando todo o negativo, mudando nossa maneira de ser com um foco em Deus.

Tudo é uma questão de manejo de energia. E a energia está relacionada com tudo o que está acontecendo ao redor – em relação a nós isso se refere ao nosso corpo, nossos pensamentos e moções. A energia e o ambiente se refletem mutuamente. Lembre-se que este mundo é baseado no livre arbítrio, é o princípio principal pelo qual estamos aqui na Terra. A energia, boa ou má, que nos afeta de forma boa ou má é uma questão de qual dessas aceitamos. Aceitar implica uma ação consciente, uma decisão consciente. Dentro das decisões que temos que tomar para evitar a entrada das “más vibrações” está a decisão de fazer certas práticas tanto físicas como mentais.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

As imagens religiosas, a energia e a conexão divina


Por Sheik Mohammad Abdullah Ansari

O Islã proíbe fazer imagens do Profeta Muhammad para que ninguém o adore no lugar de Deus ou o faça um deus. Nas sinagogas e nas casas dos judeus não é encontrada nenhuma imagem religiosa, diferente dos hindus que têm um monte de imagens de deuses e santos. Os cristãos também têm pinturas e estátuas de Cristo e os católicos usam as imagens extensivamente.

Não terás outros deuses diante de mim. Não farás imagem nem semelhança alguma do que estiver acima no céu, nem na terra. Não te inclinarás ante elas e nem lhes renderás culto; porque Eu Sou YHWH יהוה teu Deus...” (Deuteronômio 5)

Muitos budistas também se inclinam diante de estátuas de Buda e em algumas seitas do Budismo as imagens de deuses, espíritos, e etc., abundam.

Recentemente estive vendo um vídeo sobre o Budismo japonês, o Zen, que é a versão japonesa do Budismo Chan da China. O interlocutor estava entrevistando um monge em seu templo e notou que não havia nenhuma estátua ou imagem do Buda lá, diferentemente do que é comum nos templos budistas e perguntou ao monge por que. O monge respondeu:

“As pessoas que não entendem Buda precisam de Buda, enquanto que aqueles que entendem não necessitam de Buda”.

Por “Buda” quer dizer estátuas do Buda, assim como um objeto ao qual se dirige ou foca adoração ou culto. A palavra buda significa iluminado e mesmo sendo o Buda original um indiano chamado Siddhārtha Gautama Shakyamuni, através dos séculos houve muitos budistas que conseguiram a iluminação e eles também são chamados de budas. Mas a palavra também se refere a um estado de ser chamado “natureza buda” similar aos cristãos protestantes que falam do “cristo interno”.

Disse em outras ocasiões que o conceito que temos de Deus é muito importante e determina a classe de entendimento possível. Se pensarmos em Deus em termos materiais, como uma pessoa quer seja ali em cima ou encarnada, estamos limitando a amplitude de nosso entendimento e nossas possibilidades. Nossas possibilidades espirituais estão conectadas com o conceito que temos de Deus. Lembre-se que a solidez de nosso corpo, assim como do mundo, é uma ilusão. O cérebro, como tudo material, é maleável, se expande e se contrai segundo nossa intenção ou foco, isto é, decisões nossas (como temos falado extensivamente em outras ocasiões, não podemos tomar decisões reais se nos identificamos com o cérebro – não somos o cérebro). Se focarmos nossa atenção e “amor” em uma estátua ou imagem de qualquer forma, o cérebro se contrai, encolhe-se, sua amplitude de entendimento se estanca no material e não há forma de ver a Realidade ilimitada, um universo além do universo material.

Agora, isso não significa que devemos julgar, ou ainda pior, ter ações violentas contra as pessoas que estão cometendo o erro de adorar “ídolos”, imagens religiosas. Mesmo que suas ações os estejam limitando, suas intenções são boas. Eles amam, de sua forma, a Deus mesmo que os benefícios sejam limitados. Tudo é ciência. Tudo é energia, vibrações. Adoração dessa forma não produz a conexão vibratória necessária para o crescimento da alma, entretanto, é um passo em direção do caminho reto – não julguem.

Não se esqueça do quão difícil é dirigir a atenção ao “nada”, de pensar no Deus invisível. Todos experimentamos a atração das imagens religiosas, temos que ser honestos, também caímos nesse erro e continuamos cometendo-o. Por isso tenho exigido prestar atenção ao corpo. As imagens religiosas produzem uma sensação emocional que é diferente da sensação do amor real e da conexão divina. Vocês têm que experimentar a diferença.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

O coração do homem é um instrumento musical


Por Mestre Mohammad Abdullah

O coração do homem é um instrumento musical, contém uma música grandiosa. Adormecida, mas está ali esperando o momento apropriado para ser interpretada, expressada, cantada, dançada. E é através do amor que o momento chega.” 
Yalaluddin Rumi (1207-1273)

Quando dizemos “coração” nos referimos a um aspecto ou parte da alma, o ser real mais profundo do ser humano. O coração é a conexão com o Divino. É através do coração que Deus nos guia. O coração é também o mais distante do ser humano, “esperando o momento apropriado para ser interpretado...”, o coração real está oculto pelo ego, a imagem de ser, nossas ideias de quem somos, ideias equivocadas. Nós pessoas na busca de Deus, ou melhor, da conexão com Deus, estamos continuamente lutando contra o ego, o egoísmo e os impulsos negativos, mas também há práticas que realizamos para fazer que essa conexão também funcione para queimar o ego e a negatividade.
                                                                                            
Yalaluddin Rumi fala do amor. O que é o amor? Não são as emoções sentimentais que comumente são confundidas com o amor e não são os impulsos hormonais que conduzem a grandes problemas na sociedade humana. O amor é uma frequência divina através da qual Deus nos guia. O amor é a ausência do egoísmo – mais ego, menos amor; menos ego, mais amor, mais conexão com a frequência divina e o amor de Deus.

Tudo é energia. Aqui no mundo material, o que parece sólido na verdade não é, é energia em sua forma mais densa que parece sólido por nossos sentidos físicos, todavia tudo está composto de vibrações em movimentos contínuos. Devido a muitos fatores internos e externos, do presente e do passado, as vibrações no ser humano estão desequilibradas, o corpo é um emaranhado de vibrações, um caos de energia. Mas o corpo também é um condutor de energia, o que pode ser bom ou mau, dependendo das influências vibratórias externas com que nos conectamos (que permitimos nos influenciar).

As práticas que os buscadores da verdade usam desde os princípios dos tempos sempre foram de natureza vibratória – a palavra em formas de dhikr (nomes de Deus, mantra), o canto, bem como a música sagrada. A música e a voz muitas vezes em conjunto com o movimento físico, a dança sagrada, o yoga e outras formas de “exercício” físico se encontram em todas as partes do mundo. A música do coração e o movimento consciente trabalham para equilibrar as forças, as energias, dentro do corpo, assim como sintonizá-las com frequências positivas externas. Como um corpo são [saudável] combate a enfermidade quando as energias internas estão equilibradas, o corpo energético rejeita influências negativas e luta naturalmente contra o ego tornando nosso trabalho espiritual mais fácil.

O coração espiritual a que os místicos se referem não é simbólico, é uma realidade tangível, e, tampouco é totalmente distinto do coração físico. O coração físico reflete, de algumas formas, a condição espiritual do coração espiritual, ou seja, refletem-se mutuamente.

É óbvio que o corpo é afetado por sons (vibrações). Com a música o corpo se move, certos sons nos irritam e outros nos tranquilizam. O corpo físico e o corpo energético também se refletem mutualmente, dessa forma a música, a voz e o movimento físico corretamente praticado nos beneficiam tanto física como espiritualmente.

O coração é um instrumento musical, seu ritmo reflete nosso estado espiritual, é um instrumento do amor. Cuidar de sua saúde é um trabalho espiritual, um passo à conexão com Deus.

O emocionalismo

 Por Sheik Mohammad Abdullah Ansari O emocionalismo é a antítese do espiritualismo. A imagem popular do santo estoico que não se p...